“A HORA DO TESEU”

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LISBOA- Uma das lendas da mitologia grega narra que Procusto era um bandido que trabalhava numa hospedaria na Serra de Elêusis, nas colinas de Ática, e oferecia descanso aos viajantes que por lá caminhavam. Sob disfarce de gentil acolhimento escondia-se terrível segredo.  Procusto possuía uma cama de ferro onde os acomodava. Quando adormeciam, eram amarrados e amordaçados. Se maiores do que o leito, seus pés e cabeças eram cortados para que se adaptassem às suas medidas. Se menores, eram esticados e seus ossos quebrados para atingirem o comprimento suficiente.

Nenhuma pessoa cabia no catre porque o genocida possuía dois tamanhos diferentes e escolhia um ou outro para que ninguém se adaptasse às suas dimensões. Ao longo dos anos, assassinou milhares, até que um dia Teseu- o grande herói ateniense- o enfrentou e o matou, submetendo-o à mesma tortura na sua própria cama. A lenda pode ser utilizada como uma metáfora para o que ocorre atualmente no Brasil, onde o Procusto que ocupa o poder tenta impor sua visão de mundo para que suas versões se encaixem numa matriz pré-estabelecida, o que também provocou mortes durante a pandemia.

Chama-se síndrome de Procusto um transtorno mental que acomete pessoas com acentuado complexo de inferioridade, levando-as a discriminar e a perseguir aqueles que possuem talentos e habilidades superiores. Normalmente, afeta seres medíocres, que nem se desenvolveram emocional e culturalmente nem aceitam que os outros se desenvolvam. A insegurança e o medo de serem vencidos ou superados agrava os sintomas da sua doença.

Procusto força os fatos para que se adequem aos seus interesses e dos seus áulicos. Conforme as circunstâncias, utiliza uma ou outra das suas camas de ferro. Não suporta alteridades e boicota todas as iniciativas que favoreçam seus opositores, ou os faça brilhar. Não aceita ser contrariado ou opiniões diferentes das suas, as quais apresenta como erradas ou prejudiciais, contradizendo-as com fake news. É perigoso porque em meio à sua contínua frustração acredita estar no seu controle total do país e, como não está, estimula violências e divisões na população brasileira.

Uma das suas características é a falta de domínio das emoções, que o torna intempestivo, agressivo e mentiroso compulsivo. Não consegue disfarçar quando se sente ofendido pelas superioridades e capacidades dos outros. Bazófio e iletrado, despreza a cultura, a educação, tem horror à ciência e a inovações. Cercado por sua guilda, seu universo é o da anomia. A irracionalidade é sua forma de estar no mundo. Desconhece a empatia e a compaixão, o que demonstrou com seu abominável comportamento durante a epidemia do coronavírus.

Decorridos os anos da gestão danosa de Procrusto, chegou a hora de Teseu – a oposição organizada – entrar em cena para, pelo voto, no próximo dia 30, encerrar o atual ciclo de perfídias. Lembro aqui advertência feita pelo professor de política John Keane, em seu livro “Breve História da Democracia “, de que bastam apenas 10 anos para as democracias se transformarem em despotismo”. E quatro já se passaram. O trágico da democracia é que é muito difícil construí-la e muito fácil de destruí-la. As próximas eleições constituem oportunidade única para resgatarmos o Brasil.

Fonte: Jornal de Arapiraca/ Silvia Caetano