Brasil: Entre sonhos e pesadelos

Foto: Sérgio Lima

Foi no ano de 2009, durante uma reunião do G20 em Londres, quando o então presidente do país mais poderoso do mundo, Barack Obama, disse, referindo-se a outro chefe de Estado que este “é o cara” e “o político mais popular da Terra”. Tratava-se do ex-presidente do Brasil, Lula.

            Tais palavras soaram como o reconhecimento não apenas do presidente em questão, mas de todo um país que despontava como liderança regional e um modelo a ser seguido.

            Ainda que Lula tenha um papel relevante devido à construção do BRICS, fortalecimento do MERCOSUL e combinação entre crescimento econômico e melhoria de índices sociais, seria injusto dizer que a autoridade adquirida pelo Brasil tenha sido uma obra exclusiva de seu governo.

            Acontece que o Brasil desde, pelo menos, os anos 50 ocupa um lugar privilegiado no imaginário das outras nações do mundo. A Bossa Nova, a Seleção Brasileira de Futebol, o carnaval, as belas paisagens naturais e, principalmente, seu povo, o colocaram desde a segunda metade do século XX como o país do futuro.

            No entanto, é possível dizer que foi durante o governo Lula que o Brasil viveu seu apogeu em influência e liderança mundial. A Ipsos, uma das maiores empresas de pesquisas do mundo, publica desde 2005 um relatório sobre a reputação de 50 países. Os tópicos avaliados são: Exportação, Governança, Cultura, Povo, Turismo, Imigração&Investimentos.

            O Nation Brands Index, que avalia a “marca” de um país, classificou o Brasil na 20ª posição entre os anos de 2009 a 2015. Com destaque para o tópico Cultura onde o país estava entre os dez primeiros. Isso demonstra o quão considerável é o peso que a tradição cultural brasileira tem como pilar para sua influência no mundo.

            A instabilidade política provocada pelo impeachment da ex-presidente Dilma fez o Brasil cair para 23º em 2016 e no quesito Governança passou de 24º em 2009 para 31º no ano do impeachment. Com o governo Bolsonaro o resultado só piorou, ano passado o Brasil ocupou a 29ª posição e ficou entre dez últimos quando se avaliou a Governança.

            Ainda que a posição do Brasil no ranking quando avaliado somente a Cultura permaneça estável, os descasos sanitário, ambiental e cultural do governo Bolsonaro têm deteriorado aceleradamente a imagem do país no exterior, gerando assim uma aversão por parte da comunidade internacional. O resultado é notado tanto no fluxo cambial (saldo positivo de US$ 139,5 bilhões durante todo o segundo mandato de Lula contra déficit de US$ 44,76 bilhões apenas em 2019) como na queda de participação na receita cambial turística da América do Sul, passando de 30,1% em 2008 para 20,7% em 2019, segundo dados oficiais.

            Se o derretimento da imagem do Brasil é ruim para os negócios, assim também é para a autoridade do país perante o resto do mundo.

            O Brasil ocupa a 35ª posição, entre cento e cinco países avaliados, no ranking elaborado nesse ano pela empresa de consultoria Brand Finance intitulado Global Soft Power Index. Uma queda de seis posições em relação a 2020.

            Soft power é um conceito desenvolvido pelo cientista político estadunidense Joseph Nye, que pode ser entendido como a capacidade de um país influenciar outro sem a necessidade do uso de poderio econômico ou militar, utilizando-se de recursos mais suaves (daí o termo soft) como sua cultura, sua ideologia e seus valores enquanto nação.

            Amplamente aceito entre os acadêmicos, a veracidade de tal conceito pode ser vista no cotidiano, seja no famoso “american way of life”, na pretensa superioridade cultural francesa e até nos esportes. Não é à toa que as dez melhores nações nas Olimpíadas também estão no topo no ranking de soft power. Se voltarmos no tempo, iremos lembrar-nos das disputas homéricas entre Estados Unidos e União Soviética no quadro de medalhas olímpicas durante a Guerra Fria. Rivalidade que recentemente foi substituída pela China e que fez o famoso jornal New York Times mudar a forma de contagem de medalhas para manter os norte-americanos em primeiro lugar caso a China os superassem em número de medalhas de ouro. Nunca foi apenas pelo “espírito olímpico”.

             O Brasil, que possui uma reserva de soft power graças ao seu reconhecimento destacado em Cultura (primeiro lugar em esportes e oitavo no aspecto geral), viu sua imagem desabar por conta de sua política de enfretamento a Covid-19 (103ª posição entre 105 países) e sua política ambiental (nota de 2.9, sendo máximo 10.0).

            Eleito com o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, Bolsonaro vem falhando categoricamente nessa promessa. Ocupa o 55º lugar em Governança, atrás de países como a Jordânia, que ano passado reprimiu violentamente uma greve de professores, e o Marrocos, onde 69% dos maridos decidiam se as mulheres podiam sair de  casa segundo pesquisa realizada em 2018 pela ONU. Convém ressaltar que a posição do Brasil em influência cultural é apesar de Bolsonaro, os cortes de investimento no esporte, incluso o de alto rendimento, o incêndio na Cinemateca e seu patético passeio de moto enquanto autoridades nacionais e o Presidente de Portugal estavam na reabertura do Museu da Língua Portuguesa não nos deixam dúvidas.

            O Brasil, que apenas algumas páginas atrás no imenso livro da história, sonhou e agiu para tornar-se uma liderança mundial capaz de estabelecer um novo paradigma de sociabilidade onde fossem finalmente respeitadas a autodeterminação dos povos e a resolução pacífica dos conflitos, vive no presente capítulo o pesadelo de ser um pária internacional. A nós, brasileiros, o que resta é virarmos a página, escrever um novo capítulo de conquistas, reconstruir esta grande nação, voltar a sonhar.

Fonte: Guilherme Moraes, cientista político