
Por Rafaela Tenório
Craíbas, no agreste alagoano, guarda uma riqueza milionária no subsolo. Na superfície, porém, só há comunidades esquecidas e abandonadas. Mesmo entre os maiores arrecadadores da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) em Alagoas, o município convive com graves violações sociais e ambientais. Enquanto empresas extraem toneladas de cobre — matéria-prima do concentrado beneficiado pela mineradora Vale Verde — e enchem seus cofres, a população enfrenta explosões diárias, casas rachadas, falta de água e postos de saúde sucateados.
A conta não fecha — e a Justiça foi acionada. A Defensoria Pública do Estado de Alagoas (DPE/AL) entrou com uma Ação Civil Pública contra a Prefeitura de Craíbas, cobrando transparência na aplicação dos recursos da CFEM, a elaboração de um plano de investimentos sociais e a realocação imediata de famílias em áreas de risco geológico. Segundo a ação, a ausência de políticas públicas efetivas e a omissão da gestão municipal violam direitos fundamentais da população. A Defensoria também pede indenização por danos morais coletivos e a imposição de medidas corretivas urgentes.
Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), Craíbas arrecadou mais de R$ 5 milhões em 2023 com a CFEM. Pela lei, esses recursos devem compensar os impactos da mineração e beneficiar as áreas afetadas. Mas o que se vê é abandono.
Bairros como Olho d’Água, Areia Branca e Folha Miúda vivem sob risco constante. Explosões de dinamite para extração do cobre têm provocado rachaduras em casas, deslizamentos de terra e poeira constante no ar. Famílias relatam perda de móveis, problemas respiratórios em crianças e sumiço de nascentes, que antes abasteciam plantações e cisternas.
Em vez de obras, compensações ou serviços públicos reforçados, o que chega às comunidades é silêncio. O Portal da Transparência da Prefeitura não apresenta dados detalhados sobre a destinação dos recursos da mineração. A última publicação disponível, segundo a Defensoria, é genérica, sem prestação de contas discriminada, metas ou planos para aplicação social.
A mineradora Vale Verde, responsável pelo Projeto Serrote, atua na extração e beneficiamento de concentrado de cobre em Craíbas. Embora haja ocorrência de gipsita na região, a empresa não atua na exploração desse mineral. A Vale Verde foi adquirida pela britânica Appian Capital em 2018, e, em 2024, produziu 18,3 mil toneladas de cobre e 8,2 mil onças de ouro, com receita de US$ 184,4 milhões e EBITDA de US$ 83,9 milhões, conforme a revista ISTOÉ DINHEIRO.
Neste mesmo ano, a empresa foi vendida por US$ 420 milhões (aproximadamente R$ 2,39 bilhões) para o grupo chinês Baiyin Nonferrous, que agora passa a controlar suas operações no Brasil. A aquisição marca a primeira operação do conglomerado asiático no país e insere Craíbas num novo cenário geopolítico da mineração internacional.
Apesar da mineradora negar qualquer relação entre as explosões e os danos às residências, moradores denunciam rachaduras nas casas e outros impactos socioambientais causados pela atividade. Denúncias apontam ainda o uso excessivo de explosivos e o descarte inadequado de rejeitos, além da falta de consulta prévia às comunidades afetadas.
A Defensoria Pública denuncia o risco estrutural em moradias, o descaso com o meio ambiente e o total descompromisso da Prefeitura em mitigar os danos causados pela mineração. A ação pede à Justiça que obrigue o município a apresentar um plano de investimento com prazos, metas e fiscalização independente, priorizando obras em saúde, habitação, saneamento, abastecimento de água e mobilidade urbana.
O discurso de “desenvolvimento” associado à mineração não convence quem vive o dia a dia das comunidades. Há relatos de que, após sucessivas explosões, parte das paredes das casas vem abaixo, sem que o município ofereça suporte.
As escolas próximas às áreas de mineração enfrentam dificuldades. Em alguns dias, as crianças não conseguem ter aula devido ao barulho das máquinas. A poeira penetra pelas janelas, afetando a saúde dos estudantes.
Até o fechamento desta edição, a Prefeitura de Craíbas não se posicionou sobre o caso. O Jornal de Arapiraca mantém o espaço aberto, caso a gestão municipal deseje se manifestar.
