Duda, o comunista da AP

Foto: Arquivo

Alto, acredito que mais de 1,80 m, era a antítese minha, que só tenho 1,60 m de altura. De tez branca, língua um pouco presa, sempre alegre, conheci Duda quando frequentava o restaurante universitário em Salvador. Eu, estudante de jornalismo; ele, frequentava o curso de geologia, ambos da Universidade Federal da Bahia – UFBa.

Durante algum tempo, éramos somente universitários. Nada sabíamos um do outro, a não ser que Duda era pernambucano do Recife.

Em uma das reuniões da AP (Ação Popular), e não foram poucas, encontrei o pernambucano Duda. Era iniciante. Não demorou muito tempo, porém, para que ele começasse a se destacar entre os companheiros e assumir liderança de grupo, sendo destacado para combater os revisionistas do partidão (Partido Comunista Brasileiro).

Duda se incumbiu bem da tarefa, tendo sido candidato ao Diretório Central dos Estudantes, que congregava todos os universitários baianos, incluindo aí a UFBa, a Católica de Salvador e os cursos superiores de Ilhéus.

Em 1970, desliguei-me da AP, voltando a minha terra, Arapiraca. Duda continuou na Bahia. Perdi o contato com ele e com outros companheiros da AP. Somente a pouco tempo soube da notícia da morte do Eduardo Collier Filho, seu nome.

E soube assim:

“Eduardo Collier Filho (1948-1974)

“Número do processo: 081/96

“Filiação: Risoleta Meira Collier e Eduardo Collier

“Data e local de nascimento: 05/12/1948

“Organização política ou atividade: APML

“Data e local do desaparecimento: 22/02/1974, Rio de Janeiro (RJ)

Data da publicação no DOU: Lei no. 9.140/95 – 05/12/95″

Duda, como muitos outros, não aceitava a incorporação da AP ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), juntaram-se, e fundaram a APML (Ação Popular Maxista Leninista), que propunha como estratégia a guerra popular, através de técnica de união política dos assalariados. Eduardo tinha alguns codinomes: Duda, Ulisses, Anjo Barroco.

Aqui, merece ser citado o pouco de Eduardo Collier Filho quando de sua vida pela Bahia. e, depois, por outros estados. Após o curso de geologia (aliás, não sei se terminou), ingressou na Faculdade de Direito. A matéria está na página 372 do livro Direito à Memória e à Verdade (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos) 1a. edição, ano de 2007, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.

 :

“Eduardo Collier Filho cursou Direito na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Havia sido indiciado em inquérito policial pelo DOPS SP, em 12/10/1968, por ter participado do 30o. Congresso da UNE, em IBIUNA (SP). Em 1968, foi expulso da universidade pelo decreto 477. Militante da AP, tanto quanto Fernando Santa Cruz, aliaram-se ambos, a partir de 1972, na ala dessa organização clandestina que não concordou com a incorporação ao PCdoB e se mante estruturada como APML, da mesma forma que Paulo Wright, Ernestino Guimarães, Umberto Câmara e outros.

Após o desaparecimento de Duda e de Fernando Santa Cruz, que com ele estava no Rio de Janeiro, a luta de suas famílias para saber notícias, houve a denúncia a várias frentes, desde a Comissão dos Direitos Humanos, da OEA (Organização dos Estados Americanos, com sede em Washington, à Câmara dos Deputados, “onde os deputados Fernando Lira e Jarbas Vasconcelos denunciaram o episódio na tribuna e ainda a dezenas de personalidades históricas do Brasil, entre apoiadores e opositores do regime militar, como Tristão de Ataíde, Dom Hélder Câmara, os generais Reynaldo Melo de Almeida e Sylvio Frota e os marechais Cordeiro de Farias e Juarez Távora.

“Em 07/08/1974, Risoleta e Elzira – mães de Eduardo e Fernando – participaram, junto com outros familiares de desaparecidos, de uma audiência com o general Golbery, articulada por Dom Paulo Evaristo Arns. Era a primeira vez que o governo militar recebia os familiares de desaparecidos. Nenhuma resposta foi dada. Apenas seis meses depois, em fevereiro de 1975, o ministro da Justiça Armando Falcão fez um pronunciamento respondendo aos familiares com a cínica informação de que os desaparecidos estavam todos foragidos” (do mesmo livro)

Ninguém nuca mais viu o Duda.  Faltavam poucos meses para terminar o governo Garrastazu Medici. A partir, então, de 1995, o nome de Eduardo Collier Filho, o Duda, aparece na lista de desaparecidos no anexo à Lei no. 9.140/95.

(Em Arapiraca há uma rua denominada Engenheiro Camilo Collier, bairro Primavera, que foi um dos grandes construtores da linha férrea Maceió-Porto Real do Colégio. Era ascendente do Duda)

Fonte: Jornal de Arapiraca/ Manoel Ferreira Lira