O Governador Poeta

Foto: Arquivo

– Isto aqui vai mal. Muito mal. O sangue correrá em Alagoas. Ah, mas não serei eu quem irá derramá-lo. É o povo. Um dia, a massa, esgotada em sua paciência quase sem limites, irá à Assembleia e botará fogo naquilo”.

Este texto foi dito por Silvestre Péricles, governador alagoano, aos jornalistas Davi Nasser e Jean Manzon, da revista O Cruzeiro, em reportagem publicada em 18 de fevereiro de 1950.  A  fúria,  o destemor,  a clareza eram sinônimos para o governador nascido em 1896, em São Luiz do Quitunde, e morto em 1972, no Rio de Janeiro, que constatavam com a humanidade de seus versos.

Realmente, o governador-valentâo era a antítese do poeta Silvestre Péricles, que escrevinhou No Tempo das Rimas, obra literária prefaciada pelo poeta modernista Menotti Del Picchia, em 1947, muito antes de governar o estado

…Entro na tua casa. O sol fulgura.

Mas, dentro em mim, há frêmitos dolentes

De incertezas, saudades e ternura.

Surge, por fim. No teu olhar sem cores

Releio o meu destino: estão presentes

Nossas recordações e nossas dores.

Ou, como disse o poeta-governador em dezembro de 1946: “Declarando-me amador da poesia, e não poeta, estarei, contudo, justificado?” 

O militar famigerado, de arroubos, bravatas e atos de coragem se mostra um amante da terra que lhe gerou, deitando loas a Alagoas: 

“Terra natal, formosa entre as formosas  

Abriste para nós a tua luz.

E no teu seio, trescalante a rosas,

Criaste um povo altivo que seduz.

As fibras imortais e generosas

Daquele que te honraram, faze, a flux,

Que as imitem, viris e justiçosas,

No culto à liberdade que transluz.

Ó gleba de operários e guerreiros!

No trabalho geral ou na cultura, 

Ante a paz, nunca fomos derrotados.

Tu, Alagoas, que o valor constróis,

Orgulha-te de ler a história pura:

Nos campos de batalha – teus heróis.

Que dizer de um poeta que derrama homenagens a Castro Alves (poeta maior da Bahia e do Brasil), poucos anos depois, ter governado Alagoas por quatro anos, construindo fama de brabo e diz aos jornalistas aos jornalistas de O Cruzeiro, abrindo o paletó, mostrando um revólver de cano longo, calibre 38: “Faço o bicho virar peneira. Não tenho capangas. Ando sozinho, vou a qualquer parte, mas não se atrevam a mexer o dedinho. Eles gostam desta coisa boa que é a vida”.

Fonte: Jornal de Arapiraca / Manoel Lira