UM CLAMOR POR DIGNIDADE E VIDA

Por Severino Angelino, Psicanalista

Agosto chegou. E com ele, o roxo intenso do Agosto Lilás — mês dedicado à conscientização e combate à violência contra a mulher. Mas não é apenas uma campanha, uma cor ou uma data no calendário.

É o eco de gritos silenciados. É o corpo que treme, mesmo quando ninguém mais vê. É a alma que adoece dia após dia sob o peso de palavras cortantes, da mão que fere, do olhar que diminui.Como psicanalista, ouço em silêncio as dores que o mundo não vê. Mulheres que, muitas vezes, não reconhecem no próprio sofrimento o nome que ele tem: violência. Porque a violência não é só o tapa. É também o medo constante, o controle disfarçado de cuidado, a culpa que se implanta como se fosse natural. É a perda de si em nome de um amor que nunca foi amor.

A psicanálise nos ensina que o sujeito se forma no olhar do outro. Quando esse olhar é de opressão, ameaça ou anulação, a subjetividade se fere profundamente. A mulher violentada não é apenas ferida no corpo, mas também em sua capacidade de desejar, de sonhar, de existir plenamente.Por isso, este mês é também um convite: olhemos com mais escuta, com mais empatia, com mais coragem. Que o silêncio não seja mais o esconderijo da dor, mas o espaço onde começa a escuta transformadora. Que a denúncia não seja vista como destruição de uma família, mas como reconstrução da dignidade de uma vida.

É preciso dizer: não é normal sentir medo de quem se ama. Não é normal ter que pedir permissão para ser. Não é normal se apagar para manter um relacionamento. O amor verdadeiro não aprisiona — ele liberta, acolhe, fortalece.

Neste Agosto Lilás, que cada um de nós se comprometa não só a combater a violência visível, mas também a desnaturalizar as violências sutis, enraizadas em nossa cultura. Que a psicanálise possa continuar sendo abrigo e instrumento de reconstrução subjetiva para tantas mulheres que, mesmo após a dor, ainda desejam viver, amar, criar, ser.A violência contra a mulher não é um problema i

ndividual. É um problema social, histórico, estrutural. E é urgente que todas as vozes se levantem — nas casas, nas ruas, nas escolas, nos consultórios, nos jornais. Porque cada mulher que se cala por medo, vergonha ou desesperança, nos lembra que ainda há muito a fazer.Neste mês — e em todos os outros — sejamos rede. Sejamos resistência. Sejamos afeto que acolhe e palavra que denuncia.