
Por Rejane Barros
Na cidade ribeirinha de Traipu, em Alagoas, a resistência e a valorização das tradições afro-brasileiras ganham um espaço especial no calendário cultural. No último dia 29 de novembro de 2024, a Comunidade Quilombola Mumbaça reuniu cerca de 200 pessoas para o tradicional desfile em celebração ao Dia da Consciência Negra, um evento que há 16 anos é realizado de forma pública e se tornou símbolo de luta, memória e identidade.
O desfile reúne as quatro comunidades quilombolas de Traipu: Mumbaça, Tabuleiro, Belo Horizonte e Uruçu, cada uma trazendo consigo suas histórias, danças, trajes e expressões culturais que ecoam a resistência e a luta pelo fim do racismo e das desigualdades raciais. A celebração vai além de um momento de festa; é uma oportunidade de passar adiante os valores e tradições que sustentam a identidade quilombola, garantindo que as novas gerações conheçam e celebrem suas raízes.
Resistência e Memória em Traipu
Traipu, conhecida por suas margens banhadas pelo Rio São Francisco, tem nas comunidades quilombolas uma fonte inesgotável de riqueza cultural e histórica. As comunidades de Mumbaça, Tabuleiro, Belo Horizonte e Uruçu são testemunhas vivas de um passado marcado por desafios e de um presente que insiste em preservar a ancestralidade.
O secretário de Igualdade Social e Diversidade de Traipu, Manoel Oliveira, conhecido como Bie, é quilombola e relembra que o desfile começou em 1990 e, há 16 anos, se consolidou na Mumbaça como um evento público e aberto à comunidade. “Este é um momento de reafirmar nossa luta e celebrar tudo o que conquistamos, mas também de mostrar que ainda há muito a ser feito na luta contra o racismo e pela igualdade”, afirmou o secretário.
O Significado do Dia da Consciência Negra
Comemorado anualmente no dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra homenageia a memória de Zumbi dos Palmares, um dos maiores líderes da resistência negra no Brasil e símbolo da luta pela liberdade. A data é um marco para lembrar as contribuições dos povos afrodescendentes e refletir sobre os desafios ainda enfrentados. Em Traipu, o desfile reforça o protagonismo quilombola, destacando que a luta por igualdade e respeito continua viva.
Arte e Cultura como Expressões de Resistência
O evento deste ano contou com a participação especial do professor de teatro Henrique Avlis, que interagiu com os alunos e alunas das comunidades, realizando pinturas africanas nos rostos dos participantes. “Foi uma experiência incrível que ficará marcada na minha memória. Pude conhecer de perto essa cultura tão rica e cheia de significados”, disse Henrique.
Além das expressões artísticas, as comunidades trouxeram suas danças tradicionais, vestimentas que evocam suas raízes africanas e narrativas que resgatam o papel da ancestralidade na formação de sua identidade.
Apoio e Envolvimento Comunitário
O desfile, que aconteceu com o apoio da Prefeitura de Traipu e das Secretarias de Assistência Social e Educação do município, não apenas celebra o orgulho das comunidades quilombolas, mas também destaca a importância do poder público no fomento à cultura. Esse envolvimento é crucial para que eventos como este sejam mantidos e ganhem ainda mais visibilidade.
Cultivando a Tradição para o Futuro
O desfile anual da Mumbaça é mais do que um evento: é um ato de resistência que conecta o passado, o presente e o futuro das comunidades quilombolas de Traipu. A cada ano, crianças e jovens participam ativamente, garantindo que as tradições sejam cultivadas e transmitidas de geração para geração.
Ao final do desfile, o sentimento compartilhado entre os presentes era de orgulho e pertencimento. O Dia da Consciência Negra em Traipu é um lembrete poderoso de que a luta pela igualdade é contínua e que a cultura quilombola, com sua força e beleza, é um patrimônio inestimável que precisa ser celebrado e preservado.




