
O povo latinoamericano é conhecido pela sua capacidade de lutar mesmo em condições totalmente adversas, “um povo sem pernas mas que caminha” como diz a letra da canção. É assim que os venezuelanos tentam sobreviver à crise humanitária enfrentada pelo país, devido aos embargos econômicos impostos principalmente pelos Estados Unidos, caminhando em busca da sobrevivência, mesmo sem possibilidades. A crise agravada desde 2016 tem levado a população a sair do seu país em busca de oportunidades e uma vida melhor para suas famílias.
No Brasil, cerca de 261 mil venezuelanos vivem no país e centenas aguardam receber asilo em território brasileiro. Entre eles, os indígenas da etnia Warao, o segundo maior grupo étnico venezuelano. Espalhados no norte, que faz divisa com o país, e nordeste, os Waraos buscam no Brasil a chance de sobreviver com autonomia. Em Arapiraca, os Waraos chegaram há cerca de dois meses na esperança de melhores condições de vida. Hoje, 35 pessoas vivem num abrigo improvisado e mantido por doações de arapiraquenses. Além disso, aguardam as ações da Prefeitura de Arapiraca acertadas em reuniões com representantes da comunidade e Fundação Nacional do Índio (Funai).
A família de Aníbal José Pérez Cardona chegou em Arapiraca em Setembro, cerca de 30 pessoas, todas da mesma família. Inicialmente ficaram no terminal rodoviário, mas foram expulsos de lá. Passaram um tempo na Praça Luiz Pereira Lima e hoje estão num salão alugado por arapiraquenses que se sensibilizaram com a situação. Aníbal, sua esposa Rosaura Moya Marcano, seus três filhos e outros parentes estão no Brasil desde 2019 e já estiveram em outros estados como Roraima, Rio Grande do Norte e Bahia. No Rio Grande do Norte passaram dois anos e chegaram a conseguir com o Governo Estadual verba para reformar a escola que estavam abrigados, mas a pandemia paralisou as negociações. Aníbal explica que o povo Warao busca no Brasil a chance de sobreviver com dignidade e autonomia.
“Eu morei antes no Rio Grande do Norte, dois anos. Lá o governo estadual arrumou um prédio de uma escola abandonada, chegamos lá em 2019, a gente chegou a se reunir com o Ministério da Agricultura e da Pesca para trabalhar, para que a gente tivesse emprego, mas veio a pandemia e ficou tudo incerto. Lá eu trabalhei como voluntário, passava informação, mas o estado nunca reconheceu meu trabalho. Sou pai de família, tenho três filhos, fiquei cansado. A gente precisava de terreno para trabalhar, produzir, plantar e criar animais, porque na nossa cultura, a gente sempre sobreviveu com autonomia. Para a gente ter autonomia a gente tem que produzir, sem produção, como a gente vai sobreviver e ter autonomia? ”, questiona o futuro cacique da etnia.
Em Arapiraca, encontraram ajuda de civis para se estabelecerem na cidade. Natally Tamara é uma delas, voltava de uma viagem quando viu os venezuelanos pela primeira vez e sensibilizada com a situação, ela e a namorada ajudaram no deslocamento para a praça e desde então estão organizando as doações e tentando melhorar as condições da estadia em Arapiraca. Atualmente, o grupo está levantando fundos para pagar o aluguel do espaço que já está atrasado. Além disso, a Cruz Vermelha e a Funai têm acompanhado a situação dos venezuelanos no município.
A Prefeitura de Arapiraca, em reunião com a Funai, apresentou as medidas que tem tomado para que consigam ter acesso aos programas de auxílio. Atualmente, alguns deles recebem o Bolsa Família, mas têm tido dificuldades em conseguir acesso mais amplo aos serviços do município. Além do Bolsa Família e das doações, as mulheres saem pela manhã para os sinais do Centro de Arapiraca para coletar doações em dinheiro. O que eles arrecadam nos sinais é enviado para os familiares que ainda não conseguiram deixar a Venezuela e vivem em condições ainda mais precárias.
Doações
Os venezuelanos têm contado com a solidariedade dos arapiraquenses, que têm doado alimentos, refeições e roupas. No entanto, a falta de comunicação tem causado alguns desencontros. A cultura venezuelana é distinta da cultura brasileira, por exemplo eles não comem carne de porco nem de boi, não consomem enlatados ou embutidos como salsicha, mortadela. Na Venezuela, viviam próximo ao rio Orinoco, comiam peixes que pescavam, frutas, e o que conseguiam plantar no terreno. Além do artesanato que produziam a partir da fibra do buriti.
Circula nas redes sociais um vídeo em que quentinhas estariam sendo desperdiçadas pelos venezuelanos. Aníbal explicou à redação do Jornal de Arapiraca que o caso aconteceu devido desencontro da comunicação, no dia em que o vídeo foi feito, eles tinham preparado o próprio jantar com as doações que receberam, por volta das 17h, já que têm o hábito de dormir cedo. Às 23h, um grupo entregou quentinhas à comunidade, algumas foram consumidas e o excedente ficou para o outro dia, mas como eles possuem apenas uma geladeira que foi doada, algumas ficaram do lado de fora e estragaram, ficando imprópria para o consumo. Natally explica que quando isso acontece, o excedente é compartilhado com os vizinhos e às vezes ela mesma sai nas ruas da cidade para doar as quentinhas a mais para outros que precisam.
Para evitar o desperdício e o desencontro, pois tem dias que eles não têm o que comer, o grupo que está ajudando os venezuelanos pede que aqueles que querem contribuir, entrem em contato com algum dos voluntários através do perfil do Instagram @venezuelanosemarapiraca.
Crise Humanitária
A Venezuela é um país da América do Sul, rico em petróleo e sofre com embargos econômicos de países como Estados Unidos. Em dezembro de 2014, os Estados Unidos aprovaram a Lei de Defesa dos Direitos Humanos na Venezuela nº113-278, que na verdade é um conjunto de sanções ao país. Na prática, o país está impedido de realizar transações internacionais com o dólar, moeda estadunidense, isso fez com que os gastos do Governo aumentasse US$ 20 bilhões.
Os impactos das sanções são sentidos pelos moradores do país que sofrem com a inflação, a desvalorização da moeda local, falta de medicamentos e tratamentos para doenças como o câncer. O agravamento da crise em 2016 fez com que os venezuelanos deixassem sua pátria em busca de novas possibilidades.
Contudo, a realidade no Brasil para os venezuelanos ainda continua difícil. Sem ter acesso a terras para plantar e oportunidades de emprego, muitos deles possuem formação, como Aníbal que na Venezuela era professor de escola primária. Um estudo feito pelo Banco Mundial e pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) retratou como está o acesso dessa população ao emprego e à educação O relatório apontou que apenas 10% da população venezuelana em idade produtiva no Brasil consegue emprego no mercado formal.Até os que têm o mesmo nível de escolaridade que os brasileiros ainda enfrentam dificuldades, um venezuelano tem 64% menos chances de trabalhar formalmente do que um brasileiro. A desigualdade pode ser sentida desde a infância, as crianças refugiadas têm 53% menos chances de frequentar a escola do que as crianças do país, segundo a pesquisa.
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Lysanne Ferro
