Bar do Paulo: A boa música e costelinha de porco que marcaram três gerações

Foto: Nide Lins

Foi em uma esquina do bairro Ouro Preto que Paulo Lourenço, também conhecido como Paulo do Bar e DJ do Agreste, construiu um refúgio para a juventude arapiraquense das décadas de 70, 80 e 90.

No mês em que a terra de Manoel André – e que Paulo transformou em lar – comemora mais um ano de emancipação política, o Jornal de Arapiraca presta homenagem ao intelectual, fã de Elis Regina, esposo da Dona Antônia, amigo de Hermeto Pascoal e adorado por cada um que teve o privilégio de escutar jazz enquanto conversava com Paulo e degustava a costela de porco preparada por Dona Antônia.

Paulo nasceu em um povoado de Palmeira dos Índios e aos 20 anos foi acompanhar um tio doente até São Paulo e por lá ficou para tentar a vida. Trabalhou de garçom em uma pizzaria que dividia o prédio com uma boate. Às vezes Paulo também dava expediente na boate como garçom. Ali Paulo ouvia pela primeira vez o jazz americano através de Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e David Brubeck.

A partir desse dia, os discos de vinil se tornaram parte da vida de Paulo, que ao regressar a Alagoas no início da década de 70, com Dona Antônia e seus dois filhos Paulo Celso e Adélia, trouxe 800 discos consigo.

CACHAÇA, BLUES E JAZZ

Ainda tentando se estabelecer em Arapiraca, Paulo e Antônia abriram uma bodega que vendia de tudo. Pães, vassouras e, claro, cachaça. Os primeiros a frequentarem o estabelecimento, que no início não teve a pretensão de se tornar um bar, eram agraciados com um tira gosto para acompanhar a dose. Dona Antônia sempre surpreendia no sabor, assim como Paulo que fez dos clientes grandes amigos.

Os primeiros clientes do bar descobriram a coleção de discos entre uma dose e outra. Aos poucos, os jovens conheciam mais da sua vivência fora de Alagoas que prendia aqueles que ainda não tinham tido a oportunidade de sair da cidade. A cerveja que mal gelava na geladeira à gás era acompanhada da vitrola que tocava artistas do jazz e do blues.

Com a explosão dos festivais de MPB, o bar do Paulo se tornava um ponto de encontro para os apreciadores de boa música e boa prosa. A juventude arapiraquense da década de 70 fervia a cidade com bailes e festas no Clube dos Fumicultores. Não importava onde seria a festa, ela sempre começava no Bar do Paulo e acabava quando o sol chegava também no bar.

OIA A ABEIA! ZUM ZUM ZUM

Os organizadores do Bloco do Zum Zum foram os primeiros a frequentar o recinto e se tornaram amigos do intelectual. O Bloco foi uma das principais atrações do carnaval do Agreste. Todos esperavam os jovens irreverentes ocupar a avenida para a folia.

Foi com o DJ do Agreste que o Bloco iniciou uma tradição: dedicar músicas feitas na hora para aqueles que recebiam os jovens em sua casa. Paulo ganhou um verso em forma de agradecimento por sempre acolhê-los.

“Seu paulo,

homi de oro

vale um tesoro

a sua bela famia

gostei de vê

sua presença

pois a recompensa

deus vai le dá

todo dia”

O Bloco Zum Zum se reuniu, após 40 anos, no Clube dos Fumicultores, para relembrar dos momentos de folia. Além dos organizadores, uma figura ilustre fez parte do reencontro: Paulo do Bar fez parte da história do bloco e foi homenageado na reunião, em 2015.

PONTO TURÍSTICO

O bar que abriu suas portas em 1973 abrigou os que moravam na cidade e aqueles que estavam de passagem, o lugar se tornou parada obrigatória. Todos queriam ver a coleção de discos de Paulo que chegou a 5 mil vinis e 900 cds, além de provar do tempero de Dona Antônia.

Em seus 38 anos de existência, o Bar do Paulo também foi um local de muita discussão política, sobre o Cinema Novo e literatura. No auge da Ditadura Militar, o bar era o espaço em que as pessoas podiam debater com o Paulo, que recebia os jornais proibidos pela censura, como o Pasquim, Opinião, Tribuna da Luta Operária e compartilhava com os clientes.

O colecionador de discos colecionou também amigos. Seus clientes guardam até hoje com carinho as memórias das noites sem fim naquele bar de esquina. Eles ouviam Elis, que desde que Paulo ouviu pela primeira vez teve certeza que iria longe, Alceu Valença que já frequentou o bar. Ele passava pela cidade com a turnê Cavalo de Pau, em 1982. O bar estava tão lotado que não havia mais lugar, aí Paulo improvisou uma mesa do lado de fora para o pernambucano.

A primeira vez que um bar em Alagoas teve uma exposição foi no espaço que se confundia com a sua casa. O artista plástico Mozart Albuquerque inaugurou a exposição “Visualização dos Sentimentos”, em 1980. O bar passou a combinar artes plásticas e música.

PAULINHO E O BRUXO HERMETO

O alagoano de Lagoa da Canoa, Hermeto Pascoal, também frequentou o bar. O multi-instrumentista reconhecido mundialmente reencontrou o amigo, a quem chama de Paulinho, em 2017 e o agradeceu por tudo.

Arapiraca reconhece a importância de Paulo para a cultura arapiraquense, mesmo após o encerramento das atividades, em 2011. O DJ do Agreste participou da programação do Som do Mercado, edição de São João, em 2013, com discotecagem. Em 2017, recebeu a homenagem da ONG Candeeiro Aceso.

Em breve, o Jornal de Arapiraca também irá prestar uma homenagem ao incentivador cultural nas redes sociais.

A noite arapiraquense é saudosa da experiência proporcionada por Paulo que inspirou diversos bares que apostam na música como atrativo. O DJ do Agreste nunca se preocupou em fazer fortunas, pois sempre teve as maiores riquezas que um homem pode acumular: amigos, conhecimento, humildade e duas companheiras valiosas, sua esposa Dona Antônia e a música.

No documentário O DJ do Agreste, de 2009, Paulo revelou o segredo que lhe guia nesses 89 anos. “Eu tenho condições de amar as pessoas, de gostar das pessoas, então eu acho que é justamente por isso que eu estou aqui”, confidenciou.

Fonte: Jornal de Arapiraca / Lysanne Ferro

07/010/2021 05h00