
Quando o navegador italiano Américo Vespúcio avistou a ‘boca do rio’, há 520 anos, o nosso Velho Chico tinha mais força do que o mar. Não era seque preciso entrar em seu leito para ter água doce, conforme relatos dos diários de bordo dos navegantes europeus que encontraram a porta aberta para extrair riquezas e colonizar as terras já divididas entre portugueses e espanhóis.
Da época das Grandes Navegações aos dias atuais, muita água desembocou seguiu o curso do rio-mar, o Opará dos índios que habitavam suas margens e terras próximas, gradativamente ocupadas por estrangeiros. Desde então, as intervenções do homem foram alterando o regime natural do Nilo brasileiro, a ponto de tornar salobra a água das localidades mais próximas da foz, inclusive de Piaçabuçu, município alagoano cujo ponto principal de captação da Casal foi instalado 6 km rio acima da cidade, solução paliativa para o problema da intrusão salina.
Enfraquecido pelos investimentos em geração de energia elétrica, o preço que o progresso cobra é cada vez mais alto, especialmente para a região do Baixo São Francisco. De Delmiro Gouveia até Piaçabuçu, os problemas se acumulam, com a mesma intensidade para os vizinhos sergipanos.
A qualidade da água é cada vez pior, poluída, afetando a fauna e a flora, o abastecimento de cidades e obrigando o morador da beira do rio a buscar água em pontos distantes da margem, remando entre machas de plantas que se proliferam como um dos sinais evidentes do processo acelerado de degradação.
Expedição científica
O drama cotidiano do povo beiradeiro – aquele que mora à margem do rio – é comprovado pela ciência. A partir de 2018, as universidades federais de Alagoas e de Sergipe passaram a realizar pesquisas na região, trabalho feito em parceria com a Embrapa, a Universidade Federal Rural de Pernambuco e mais de uma dezena de instituições.
O resultado da 3ª expedição científica aponta para dados alarmantes, como a presença de coliformes fecais e bactérias associadas a substâncias contaminantes em 95% das amostras coletadas, com índices que variam de 20% a 30% acima do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A investigação sistemática revela ainda a presença de metais pesados como arsênio, chumbo, mercúrio e antimônio no rio, consequência do uso de agrotóxicos no manejo do solo das áreas próximas do leito, problema que certamente vai piorar com a liberação desenfreada de mais defensivos agrícolas e produtos similares pelo governo federal.
“Temos uma situação grave do ponto de vista de saúde pública, pois além da água em condição inadequada em alguns ambientes para consumo, temos o aumento de parasitoses [nos peixes consumidos] que podem causar problemas para o animal e para o homem”, explica o Professor Emerson Soares, coordenador das expedições, ao portal InfoSãoFrancisco.
Em 2020, a editora da Universidade Federal de Alagoas publicou o livro Baixo São Francisco: Características Ambientais e Sociais, trabalho organizado pelos pesquisadores Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva e Rafael Navas sobre as expedições científicas realizadas em 2018 e 2019, com versão digital disponível no seguinte endereço eletrônico – http://faep.eng.br/arquivos/o_baixo_sao_francisco.pdf
Mancha na região do cânion
Potencializado pelo lançamento de esgoto sem tratamento, o coquetel venenoso vai destruindo a saúde do Velho Chico e alimentando o processo identificado como eutrofização do ambiente aquático, cujo sinal mais evidente apareceu em abril de 2015, quando uma ‘mancha’ escura com cerca de 30 km de extensão surgiu na superfície do rio, na cinematográfica região dos cânions.
Estudos dos órgãos ambientais e empresas de saneamento de Alagoas e de Sergipe identificaram que a face visível do problema era formada por algas em suspensão, uma hipereutrofização do leito do rio que causou a suspensão do fornecimento de água para mais de 100 mil pessoas do Alto Sertão, somente em território alagoano.
Um trecho que consta no relatório de fiscalização do IMA Alagoas nº 93/2015 inclui comentário atribuído ao piloto do helicóptero sobre a mancha. Do alto dos seus 27 anos de trabalho sobrevoando a área do Complexo de Hidrelétricas da CHESF e a região do cânion do Rio São Francisco, o experiente piloto da aeronave de identidade preservada disse nunca tinha visto algo parecido.
Também consta nos relatórios pesquisados pela reportagem que a CHESF havia esvaziado o reservatório de Delmiro Gouveia para serviços de reparos nas comportas da barragem durante o período de 22 de fevereiro a 10 de março, ação que resultou no surgimento da mancha e rendeu um auto de infração à companhia que altera vazões sem a devida publicidade para ribeirinhos, causa de transtornos constantes.
O aumento ou a redução do volume de água liberados dos reservatórios da CHESF atendem prioritariamente ao Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão responsável pela coordenação e controle da geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN) e pelo planejamento da operação dos sistemas isolados do país, sob a fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Vazões irregulares
Em meio a esse ambiente pouco saudável, populações difusas, isoladas de áreas urbanas, travam a batalha pela sobrevivência. O desequilíbrio ambiental obriga o ‘beradero’ a botar o barco na água para matar a sede e preparar comida porque na margem a fartura é de lama e mato, panorama cada vez mais comum quando a moldura do rio São Francisco é a caatinga.
No período das vazões reduzidas, abaixo de míseros 700 metros cúbicos por segundo, o rio seca, as pedras afloram do espelho d’água, as plantas exóticas se acumulam e tudo fica mais difícil para quem já dispõe de poucos recursos. Com o remo, o ribeirinho luta para chegar até o meio do rio, onde a água é de má qualidade, imprópria para consumo humano, cenário que tende a se agravar em 2022, risco manifestado pelo Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) ao Ministério de Minas e Energia.
Em ofício na semana passada, o órgão colegiado alerta para as consequências, em toda a bacia do Rio da Unidade Nacional, caso as operações atuais nos reservatórios sejam mantidas para mitigar a crise no sistema da Bacia do Rio Paraná. O CBHSF ressalta que, “se as chuvas do período úmido atrasarem e não forem satisfatórias”, há risco de agravamento da crise hídrica, com mais impactos negativos para o Velho Chico e seus afluentes.
Para gerar mais energia elétrica, é preciso liberar mais água. Por isso, as vazões defluentes dos reservatórios de Três Marias, Sobradinho e Xingó nos meses de setembro, outubro e novembro estão maiores, a fim de suprir o que está faltando na Bacia do Paraná. E se essas vazões permaneçam inalteradas, a perspectiva é chegar ao mês de novembro com os volumes úteis das barragens da CHESF abaixo dos 20%.
Petroleo na foz
Como se não bastassem todos os problemas que degradam a vida do Velho Chico, uma nova ameaça se aproxima da foz. A empresa Exxon Mobil adquiriu áreas com objetivo de explorar petróleo na região, processo que segue em ritmo acelerado e atropelando etapas, conforme reportagem publicada na edição anterior do Jornal de Arapiraca.
Em meio a esse ambiente em profundo desequilíbrio e sem perspectivas positivas, populações difusas, isoladas de áreas urbanas, travam a batalha pela sobrevivência entre balseiros – plantas aquáticas – que flutuam no espelho d’água.
Por ignorância ou omissão, as demais pessoas que dependem direta e indiretamente do Rio São Francisco assistem em a morte lenta do rio. Se engana quem só enxerga fartura nas belas imagens vendidas para o turismo, a aposta mais recente do atrativo em via de extinção.
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Fernando Vinicius
07/10/2021 05h15









