
O produtor rural Francisco Batista da Silva, após mais de 50 anos residindo no mesmo local precisou deixar sua casa e se mudar junto com seu filho que sofre de epilepsia, Veridiano Batista. Pai e filho recorrem à família nos últimos meses para preservar a saúde de Veridiano, que chegou a precisar aumentar a dosagem dos remédios que necessita para controlar o problema de saúde.
O casal Sebastião João dos Santos e Salete Santos esperava passar a aposentadoria na tranquilidade do povoado Lagoa do Mel, onde sempre trabalharam, mas vivem dias de angústia e perderam o seu sossego nos últimos meses. Da mesma forma, Márcio Santana e Ivanilda agora vivem em alerta, pois uma das suas filhas tem Síndrome de Down e fica agitada durante as explosões da Mineradora Vale Verde na zona rural de Craíbas.
De modo geral, essa é a situação das famílias que residem na Lagoa do Mel, principalmente as que moram próximas da pista à MVV. As pessoas vivem com medo e temem que aconteça uma tragédia, dezenas de casos gerados pelo mesmo motivo: a exploração de minério de cobre da Mineradora Vale Verde, no Agreste alagoano.
Francisco, Sebastião, Márcio e dezenas de moradores dos povoados localizados no entorno do Projeto Serrote, se reuniram na última terça-feira (08) com representantes da MVV e da prefeitura de Craíbas para apresentar as queixas. A reunião foi agendada após os moradores bloquearem a AL 486, pista que dá acesso ao município, para chamar a atenção das autoridades para o que vem acontecendo na região.
A reunião ocorreu na escola municipal da comunidade e foi marcada pela tensão entre os moradores que reclamam os transtornos causados e a ausência de respostas convincentes dos representantes da mineradora para as demandas da população.
Muitas perguntas poucas respostas
A Mineradora Vale Verde esteve representada pelo gerente geral de operação da Mina Serrote, Tony Lima, e Mário Lima, coordenador de comunicação do projeto na reunião. Entre as reclamações apresentadas estão as explosões que, segundo os moradores, fazem as janelas e portas tremerem, a poeira constante que está causando problemas respiratórios em adultos e crianças, as rachaduras que desde o início das atividades da empresa vem surgindo nas casas.
Além disso, os moradores estão preocupados com seus animais, já que um dos produtores rurais perdeu sete bezerros nos últimos meses. “Quando a gente construiu as nossas casas, a gente nunca imaginou que ia ter que conviver com uma mineradora, a minha casa nunca teve rachadura e agora tem, é forrada com gesso, então sente ainda mais porque ela vem tipo onda, vem uma sequência. Então, pra quem tá dentro de casa é uma coisa, pra quem está fora é outra. Pela minha casa ser bem próxima, se eu abrir a porta é um impacto, quando a casa está fechada o impacto é ainda maior, sente mais ainda a vibração”, explicou um dos moradores durante a reunião.
Francisco Batista, que teve que se mudar da sua residência para preservar a sua saúde e de seu filho, questionou a demora da empresa em dar respostas principalmente para os casos mais críticos, como o dele, que tem um filho com epilepsia e sofre mais ainda em cada explosão realizada pela mineradora, além dos problemas respiratórios causados pela poeira resultado das atividades exploradoras.
“Todo mundo sabe que foi preciso eu abandonar a minha casa que eu comprei pra ir pra casa da minha filha por causa do meu filho. O que falta pra vocês é ter um pouco de consciência, essa empresa olhar para as pessoas que estão necessitadas, que tem problemas de saúde. O meu filho tem problema sério, foi aumentado o remédio dele já três vezes por causa dos estrondos da empresa. Respeitem pelo menos o meu filho!”, desabafou o produtor rural.
Laudo de 51 casas
Em resposta, os representantes da Vale Verde afirmaram que irão retomar o diálogo com Francisco para retomar o projeto de isolamento acústico da casa. Entre as explicações e informes das medidas que estão sendo tomadas, os representantes da Vale Verde afirmaram que aguardam a entrega dos laudos do acompanhamento técnico do estudo com 51 casas previstos para esta semana. Cada morador que aceitou participar do estudo irá receber o seu laudo, segundo o gerente geral de operação.
Algumas das reclamações já foram atendidas pela empresa, entretanto “eles estavam colocando as explosões no intervalo dos meninos da escola. A gente começou a reclamar pra ser num horário que as crianças não estão em casa, porque na escola eles estão brincando entretidos e do nada um estrondo, qual criança não se assusta?”, revelou um morador que participou da reunião.
Contudo, a convivência com a Vale Verde para os moradores é insustentável e terá impactos irreversíveis para a saúde. Segundo eles, a mineradora opera 24 horas por dia, o que interfere na qualidade do sono. Os horários de detonação também foram um motivo de queixa, já que anteriormente tinha as quintas-feiras como dia fixo, agora é aleatoriamente, com avisos uma hora antes da explosão.
A reunião chegou ao impasse quanto aos próximos passos, pois a maioria dos moradores querem ser indenizados porque tem sido impossível viver em harmonia, pois a mina possui uma vida útil de 14 anos, no mínimo. Além disso, os terrenos já estão desvalorizados, mesmo bem localizados. Como saída, a equipe da MVV propôs a criação de um comitê com até 12 pessoas que contemple moradores dos povoados, o município de Craíbas e a empresa, para ir acompanhando o que será possível ser feito.
Os moradores temem que se repita em Craíbas o que ocorreu em Maceió, com a Braskem, afetando quatro bairros da capital, fazendo com que mais de 40 mil pessoas fossem obrigadas a deixar suas casas e estabelecimentos comerciais. Além da tragédia fatal de Brumadinho e Mariana, também ocasionadas por descuido de mineradoras.
Secretaria de Meio Ambiente de Craíbas
O secretário de Meio Ambiente de Craíbas, Nivaldo Batista, acompanhou a reunião e lamentou a falta de estrutura da pasta para dar conta das demandas do município e população.
“Desde o princípio a gente vem trabalhando para tentar resolver algumas situações que têm acontecido. A nossa maior dificuldade é que a secretaria de meio ambiente hoje não tem os recursos que deveria ter pra gente fazer um trabalho mais efetivo. A gente precisaria de uma equipe técnica, se as gestões anteriores tivessem observado um pouco mais, a gente poderia ter mais capacidade, com interação maior com os órgãos ambientais, a nossa legislação ambiental ainda é muito deficitária e desde o início dessa gestão a gente vem trabalhando para isso. Para resumir, a secretaria de meio ambiente passou a existir com essa gestão atual, o código ambiental do município foi aprovado apenas em 2016 e o conselho de meio ambiente foi implantado quatro meses atrás”, revelou o secretário que assumiu a pasta no final de 2021.
O Jornal de Arapiraca alerta, desde julho de 2021, sobre os impactos da exploração de minério de cobre. Algumas casas já apresentavam rachaduras em meados do ano passado devido às detonações, situação questionada pelo JÁ à mineradora que, quando se posiciona, não responde efetivamente ou retorna com informações vagas.
O Ministério Público Federal, após as reportagens, anunciou que iria investigar a atividade exploratória da empresa de mineração que pretende retirar cerca de 4,1 milhões de toneladas por ano de concentrado de cobre do Agreste alagoano, riqueza processada para gerar 50 mil toneladas de concentrado de cobre.
Somente a mina de Craíbas possui uma vida útil estimada em 14 anos, que segundo a empresa, esse tempo pode ser estendido, gerando um lucro de quase 400 milhões de dólares.
Mineradora Vale Verde muda informes públicos sobre explosões na comunidade Lagoa do Mel
A reunião tensa entre moradores da comunidade Lagoa do Mel e representantes da Vale Verde realizada na última terça, 08, é reflexo imediato do protesto que bloqueou a pista de acesso ao Projeto Serrote, foco das atividades da mineradora no Agreste alagoano.
Durante cerca de três horas da manhã de segunda-feira, 07, manifestantes realizaram a manifestação e denunciaram os problemas que atingem famílias residentes na Lagoa do Mel.
Imóveis com rachaduras cada vez mais maiores, pessoas atormentadas pelo barulho incessante de máquinas e veículos pesados e até animais sofrendo as consequências da exploração da Vale Verde na zona rural de Craíbas, município vizinho de Arapiraca.
Inconformados com os problemas que estão alterando de maneira contundente o cotidiano dos moradores do entorno da área onde é feita a exploração de minério de cobre, parte da população impediu o tráfego na rodovia AL 486.
7 Segundos
A reportagem do portal 7 Segundos cobriu a manifestação e conversou com algumas pessoas, entre elas o agricultor Genival da Silva. Questionado pelo repórter Fábio Lopes sobre a divulgação de informações na comunidade sobre a detonação de explosivos, o entrevistado disse que os alertas deixaram de ser feitos.
“Antes passava um carro avisando: vai ter explosão tal hora. Hoje eles não avisam mais e mudam a data, pode ser quarta, quinta, sexta, não tem mais data certa”, afirmou Genival sobre o procedimento anteriormente realizado uma vez por semana e durante o dia, mostrando as rachaduras em sua residência ao portal de notícias arapiraquense e rádio Antena 1.
Outro morador antigo, com mais de 70 anos na Lagoa da Mel, chega a declarar que não construiu sua casa para suportar terremotos e aguarda um posicionamento da Vale Verde sobre a necessidade de remoção do local e a devida indenização.
“Eles não falam isso de maneira nenhuma e a gente fica suportando”, disse Sebastiao dos Santos, um agricultor com mais de 80 anos vividos, reconhecendo que não tem mais idade para aguentar tanto aperreio de vida.
As famílias do povoado Lagoa do Mel também reclamaram da omissão dos vereadores de Craíbas e do prefeito Teófilo Pereira aos problemas da comunidade. Quando a polícia e os bombeiros foram acionados, representantes do poder público municipal também apareceram para mediar o fim do protesto que também teve cobertura do portal NN1 e Rádio Novo Nordeste.
Novo Nordeste
“Desde o ano de 2020 que a gente vem tentando ter uma certa comunicação com eles (com a MVV), eles vêm, dá uma palavra bonita, mas fazer algo, mostrar realmente serviço, não vem”, afirmou uma entrevistada que não teve a identidade divulgada no momento da reportagem ao vivo, registro disponível no portal de notícias NN1.
A manifestante declarou ainda estar com a moradia cheia de rachaduras, problema que atinge principalmente as casas ‘mais humildes’ das pessoas da região e pede reparação da Vale Verde pelos danos ao patrimônio e transtornos causados, conforme deixou claro durante a entrevista.
“As bombas não estão incomodando só a gente, os animais estão morrendo, as galinhas não chocam devido a esses problemas. Tem gente doente de nervo no sítio e cada vez que solta bomba, se assusta e fica mais agitado ainda”, afirma a manifestante sobre a detonação de explosivos, agora sem aviso prévio, conforme informado ao 7 Segundos.
“Eles colocam uma bomba embaixo da terra, e é como se a pedra fosse um corpo humano. Quando você detona o coração, vai até a ponta do seu dedo, bombeando o sangue e é isso que está acontecendo: a pedra vai rachando o chão, rachando a casa do pessoal e eles (a MMV) só geram laudo a favor deles”, comparou o morador identificado por seu primeiro nome (Rafael)
‘Reuniões futuras’
De forma contraditória ao suposto contato mensal com as comunidades do entorno do Projeto Serrote, a MVV informa ao NN1 que representantes da mineradora estiveram no local do protesto por duas vezes e que “os moradores trouxeram alguns pontos que serão tratados em reuniões futuras”.
É como se os moradores diretamente afetados pela exploração da riqueza mineral em Craíbas nunca tivessem reclamado sobre algum transtorno até o começo desta semana e nem durante o programa de relacionamento que a MVV chama de Diálogo Social.
“Isso tudo eles estão cientes, mas quanto mais a gente fala, eles tentam se aproximar das famílias mais carentes para oferecer um emprego, comprando a dignidade do povo e essa família infelizmente se cala”, disse o manifestante Rafael ao repórter Eduardo Cardeal (NN1), citando ainda os dramas das famílias dos 270 mortos pelo rompimento da barragem da Vale Verde, em Brumadinho-MG, e dos alagoanos retirados dos bairros de Maceió que estão afundando devido à extração de sal-gema pela Braskem.
“Pra vocês (MVV e Braskem) é mais fácil indenizar depois por morte e por calamidade pública e a gente não quer chegar nessa situação. A gente quer uma solução para a população”, disse o morador da Lagoa do Mel sobre a insatisfação dos moradores de Craíbas com a Mineradora Vale Verde, um dia antes do encontro com representantes da MVV numa escola da comunidade também afetada pelas atividades da mineradora.
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Lysanne Ferro/ Fernando Vinicius

