A confissão

Numa quarta-feira de manhazinha, o sol ainda estava nascendo quando sairam Clara e Felipe para o Brejo do capitão Sulino confessar e assistir missa. Na viagem, passaram pela terras que depois se chamariam Itapicurú, de Fazenda Velha; pelos Veados; pela Baixa Grande, pelo centro do povoado Arapiraca; cruzaram o riacho Piauí, o sítio Mocó, e foram em direção ao rio Poções (rio Coruripe). Logo depois, estava a localidade do Brejo, também e como todas as outras, pertencentes ao município de Limoeirio de Anadia. Era o Brejo do capitão Sulino Barbosa da Silva, hoje conhecido como Brejo dos Teófilo (**).
Alí, na quinta-feira à noite, se arrancharam perto da capela, para, no outro dia, irem à confissão e à missa. Aliás, irem não. Somente Clara ia se confessar. A missa, esta sim, seria assistida pelo dois, Felipe e Clara.
A capela estava cheia de fiéis. Homens e mulheres, muitas trazendo seus filhos, de todo canto; de Arapiraca, de Canabrava, de moradores às margens do rio Poções. Até de Limoeiro. A fila para os fiéis se confessarem era grande, de pessoas dos dois sexos (do lado direito do padre, a fila dos homens; do lado esquerdo, a das mulheres). Nesta, Clara estava lá, também, esperando sua vez. Contrita.
Chegou a hora. Lépida, dirigiu-se ao confessionário, ajoelhou-se, fez o sinal da cruz. E falou:
–“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, disse Clara
–“Ave Maria Puríssima, respondeu o padre Pedro Vital (***).
–“Sem pecado concebida. Abençoe-me padre porque pequei. Há muitos anos, uns quatro, em não me confesso. Meus pecados são muitos…
E Clara passou a citar, como ladainha, tudo que achava ser pecado, que achava que ia contra a lei de Deus. E falava… e falava!
Aí, parou! Criou coragem e exclamou:
–“Padre, eu pequei pior ainda, pois desejei a morte de meus filhos, que eles fossem ao encontro do Senhor antes de mim, para não deixá-los neste mundo pecador. E eles morreram, padre! Morreram eles e seus primos. Um após o outro. Primeiro morreu Cecília, depois foi Manoel. Morreu Maria, morreu Thomazia. Ainda morreu Maria Angélica, morreu Josepha, morreu Antônia. Depois, morreu Joana Maria, morreu Rozendo, morreu Izabel e morreu José Joana. Depois morreu Joana, morreu Antônia e morreu Pedro. Padre, foram 14 mortes de anginhos, todos depois que fiz o pedido a Deus para levá-los antes de mim. Mas, seu padre, a morte veio e matou não só meus filhos. Ela também matou os filhos de minhas irmãs, de meus irmãos. Ah, seu Padre, peça a Deus para me perdoar. Eu estou arrependida de ver tanta desgraça na nossa família. Na minha e na de meus irmãos.
O padre Pedro Vital não se conteve só em ouvir a confissão de Clara. Interrompendo-a:
–“Pára, minha filha, o que é que você está dizendo! Você pediu a Deus a morte das crianças antes da sua morte? Qual o motivo, filha! Pelo amor de Deus, minha filha. Vamos rezar juntos. Pelo amor de Deus!
E rezaram:
–“Pai nosso, que estás nos céus!
“Santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu Reino;
“seja feita a tua vontade,
“assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso
“pão de cada dia. Perdoa as nossa dívidas,
“assim como perdoamos
“aos nossos devedores. E não nos deixes cair
“em tentação,
“porque Teu é o Reino, o podere a glória para sempre. Amém!
O padre Vital, depois do Pai Nosso em conjunto, disse:
–Não há motivo que justifique você, minha filha, pedir a Deus para levar seus filhos deste mundo, antes de sua ida. Só a ele cabe decidir. Deus é misericordioso, nunca vingativo. Deus aceita pedido para salvar, nunca para matar. Olha, minha filha, sua confissão é muito importante, pois Ele está lhe ouvindo. Seu arrependimento é, também, muito importante.
E continuou:
–Minha filha, aceita a obra de penitência que lhe é proposta para satisfação de seus pecados e para emenda de sua vida. Manifesta seu arrependimentio recitando o Ato de Contrição.
Clara recitou:
-“Senhor Jesus, Cordeiro de Deus
“que tirais o pecado do mundo,
“reconcilia-me com o Pai pela graça do Espírito Santo;
“purifica-me de todos os meus pecados
“e faz de mim uma mulher nova. Amém!”
O padre Pedro Vital, por fim, absolve Clara de todos os seus pecados, dizendo:
-O Senhor absolveu-a de todos os seus pecados. Ide em paz, minha filha. Reza cinco Pai Nosso, com cinco Ave Maria, o Credo, uma Salve Rainha e peça perdão novamente. Ajoelhe-se aos pés do Senhor Jesus Cristo crucificado e de Nossa Senhora Mãe de Deus… e volte para sua casa, minha filha, e o Senhor a acompanhe.
O sacerdote exugou o rosto com um lenço, fez o sinal da cruz, e disse:
–Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Clara o acompanhou, dizendo:
–Amém.
Logo depois, levantou-se leve e fagueira e dirigiu-se ao altar onde estava a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Durante alguns minutos, a mãe dos anjinhos, ajoelhada, compenetrada, com as mãos entrelaçadas, passa a movimentar os lábios. Uma vez, não, algumas vezes, viram-se lágrimas escorrendo pela sua face esquerda.
Estava absolvida de todos os pecados.
(A Capela de Nossa Senhora da Conceição antes pertencia a Limoeiro de Anadia; depois, passou a pertencer ao município de Taquarana. Hoje, está no município de Coité do Nóia)
*Jornalista
** Brejo dos Teófilo, onde se situa (va) a fazenda Brejo, e nasceu um dos maiores edcadores de Alagoas, José Moacir Teófilo, diretor por inúmeros anos do Ginásio (depois Colégio) Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, e secretário de Educação de Alagoas, na gestão do governador José Tavares. O local está, hoje, situado no município de Coité do Nóia.
*** Padre Pedro Vital da Silva foi pároco de Limoeiro de Anadia de 1854/1904 (era irmão do avô do ex-vereador de Arapiraca, Domingos Vital da Silva, que se chamava Domingos Barbosa da Costa). Fundou a capela do Brejo do capitão Sulino (Brejo dos Teófilo), em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, que foi construída sobre o túmulo de seu pai, morto em 1855, e dono das terras.
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Manoel Ferreira Lira
