
O risco era previsível, mas foi ignorado. Uma fissura imensa mostrava que o desabamento poderia ocorrer a qualquer momento, queda acelerada pelo maior volume de chuvas no cânion do Lago de Furnas, situado no município Capitólio, em Minas Gerais. O desastre resultou em dez pessoas mortas, mais de 30 feridos e três embarcações afundadas.
Tudo isso teria sido evitado se os setores públicos e privados tivessem um estudo geológico em mãos, pesquisa que mostraria as áreas de risco e as intervenções necessárias, mas o que esperar de cautela em uma área com intensa visitação pública e, apesar disso, desprovida de sistema de alerta para a ocorrência de trombas d’água, fenômeno que desencadeou a tragédia.
“A área deveria ter sido fechada para o turismo até que se fizesse uma intervenção de técnicos capacitados, além de uma análise mais precisa dos riscos no local. Já havia uma fratura prévia na rocha que se desprendeu que ia do topo até a base, preenchida por terra. Com a intensidade das chuvas, esse solo que fica entre as fraturas foi levado. Além disso, a água ajudou a fazer mais peso dentro da fratura”, conjunto de fatores que fez o pedaço se deslocou por completo, conforme disse a professora de geologia da Universidade Federal de Goiás, Joana Sanches, para a CNN Brasil.
As imagens do desabamento sobre as lanchas, o desespero da situação, o reencontro emocionado de familiares e amigos resgatados e o noticiário sobre mais um drama brasileiro repercutiu em todo país e acendeu o alerta para os Cânions do Rio São Francisco.
Geólogo Roberto Vieira
O geólogo arapiraquense José Roberto Vieira falou sobre o tema durante entrevista à Rádio Novo Nordeste. Ele frisou que há uma lei federal, instituída em 2012, que estabelece a competência para os municípios identificarem e mapearem as áreas de risco de desastres hidrológicos e geológicos.
Considerando que as prefeituras não têm, em sua maioria, geólogos ou técnicos da área em seu quadro pessoal, é recomendável que as gestões municipais com atrativos turísticos do tipo geoparque invistam em estudos que gerem laudos produzidos por profissional especializado, seja por meio de órgão estadual ou federal.
Roberto Viera também frisou diferenças fundamentais entre o nosso cânion e o da região Sudeste. Além da formação com material mais sólido e resistente, especialmente nas rochas graníticas, a incidência de chuvas durante o verão no semiárido do Nordeste brasileiro é bem menor do que em Minas Gerais, estado considerado a ‘caixa d’água do Brasil’ e que está justamente em seu período de maior quantidade de chuvas.
Terceiro polo turístico de AL
Não há motivo para pânico e nem receio de desastre no terceiro polo turístico de Alagoas, cenário cinematográfico da paisagem sertaneja, emoldurada por paredões rochosos e delineada pelo leito do Velho Chico.
Situado na divisa com Sergipe e bem próximo de Paulo Afonso-BA, o local recebe milhares de turistas, especialmente durante o verão, fluxo que precisa continuar sendo protegido e bem cuidado.
Roberto Vieira disse que o levantamento na região dos Cânions entre Alagoas e Sergipe não precisa ser feito em toda extensão, cerca de 70 quilômetros, mas é necessário analisar as condições nos locais de visitação turística entre os municípios de Piranhas e Olho d’Água do Casado, trecho com aproximadamente 16 km.
“É um trabalho de geologia, com mapeamento detalhado das fendas e fraturas para identificar onde é necessário adotar medidas”, disse sobre a ação que envolve a Defesa Civil e alerta os gestores desses municípios recebem apoio direto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico e Turismo (Sedetur).
Sedetur Alagoas
A reportagem do Jornal de Arapiraca entrou em contato com a Sedetur Alagoas e foi informada que haverá uma operação de inspeção na região dos Cânions do São Francisco envolvendo os governos de Alagoas e Sergipe, com aporte de representantes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Marinha do Brasil e o Serviço Geológico do Brasil.
A solicitação foi feita pelo Secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas, Marcius Beltrão, e pelo gestor de Estado do Turismo de Sergipe, José Sales Netos, ainda sem data definida para o trabalho técnico.
O mapeamento do cânions do São Francisco já havia sido tratado durante reunião realizada em 10 de janeiro, com a presença do ministro do Turismo, Gilson Neto, e todos os secretários de estado do país sobre questões referentes a segurança em atrativos turísticos. Na ocasião, foram definidas algumas medidas como a necessidade de mapeamento de alguns trechos dos pontos turísticos, como a Gruta do Talhado que deve ser mapeada em todo o trecho percorrido pelas embarcações.
A Sedetur Alagoas também destaca que, apesar das semelhanças entre o Cânions do Rio São Francisco e o Cânions do Capitólio, há enormes diferenças entre eles, tanto sobre aspectos geológicos quanto geográficos, como potencial de chuvas, um possui rios e cachoeiras acima, o outro não; entre outras questões.
“É importante também destacar que todo o processo de inspeção é algo extremamente técnico e por isso não basta apenas a mobilização de equipes até o local, pois cada questão por ser técnica exige atenção idem. Por isso, os Secretários de Alagoas e Sergipe solicitaram do governo federal o apoio de técnicos do Serviço Geológico do Brasil para uma melhor atuação”.
Fonte: Jornal de Arapiraca/ Fernando Vinicius
